Escrito por Gaspare Bruno, CINO da Anlix.

As redes de telecomunicações estão passando por uma transformação importante. Tradicionalmente, operadoras dependiam de soluções integradas, muitas vezes fornecidas por um único fabricante, nas quais equipamentos, softwares de gerenciamento e ferramentas operacionais faziam parte de um mesmo ecossistema. Embora esse modelo simplificasse determinadas atividades, ele também criava uma forte dependência tecnológica, conhecida como Bloqueo del proveedor.

Com a evolução das redes, a necessidade de reduzir custos, acelerar a inovação e ampliar a liberdade de escolha de fornecedores impulsionou a adoção de arquiteturas abertas e desagregadas. Nesse novo cenário, diferentes fabricantes podem fornecer equipamentos, funções de rede, plataformas de gerenciamento e sistemas de suporte à operação e ao negócio.

Entretanto, a desagregação só produz seus benefícios quando os diferentes componentes conseguem trabalhar de maneira coordenada.

Uma operadora pode utilizar roteadores residenciais de diversos fabricantes, equipamentos de acesso de outros fornecedores e múltiplas plataformas para provisionamento, monitoramento, atendimento e faturamento. Todos esses sistemas precisam compartilhar informações e executar processos de forma consistente.

O desafio vai muito além de estabelecer conectividade entre equipamentos. É necessário garantir que informações coletadas na rede sejam compreendidas pelos sistemas operacionais e possam ser utilizadas pelos processos de negócio.

Considere uma situação cotidiana: um assinante entra em contato com a operadora porque sua conexão Wi-Fi apresenta problemas. O sistema de atendimento precisa identificar o cliente e o serviço contratado, localizar o equipamento instalado em sua residência, consultar informações técnicas, executar um diagnóstico e, eventualmente, modificar uma configuração.

Embora essa operação pareça simples para o atendente, sua execução pode envolver diversos sistemas, protocolos e equipamentos de fabricantes diferentes, e é nesse contexto que a interoperabilidade se torna um elemento fundamental para a operação das redes modernas.

 As diferentes camadas de integração

A interoperabilidade pode ser compreendida a partir das diferentes camadas tecnológicas que compõem a arquitetura de uma operadora.

Na camada mais próxima do assinante estão os dispositivos e elementos de rede, como ONTs, roteadores, gateways residenciais e pontos de acesso Wi-Fi. Esses equipamentos podem apresentar diferentes capacidades, versões de firmware e implementações de protocolos de gerenciamento.

Acima deles estão as plataformas responsáveis por coletar informações, configurar dispositivos e executar operações remotamente. Essas plataformas integram o domínio dos Operational Support Systems (OSS), que sustentam atividades como provisionamento, inventário, monitoramento, diagnóstico e manutenção da rede.

Por sua vez, os Business Support Systems (BSS) concentram funções como gestão de clientes, catálogo de produtos, contratação de serviços, faturamento e relacionamento comercial.

A comunicação entre essas camadas pode ser representada pela seguinte arquitetura simplificada:

Essa representação delimita duas fronteiras importantes de interoperabilidade:

A primeira conecta os dispositivos aos sistemas de operação.  Nessa interface, protocolos padronizados permitem que equipamentos de diferentes fabricantes sejam gerenciados por plataformas comuns.

A segunda conecta os sistemas operacionais aos sistemas de negócio. Nela, APIs e modelos de informação padronizados permitem que funcionalidades técnicas sejam disponibilizadas para os processos comerciais e de atendimento.

Duas organizações possuem papel relevante nesse cenário: o Broadband Forum (BBF), com suas especificações para gerenciamento de dispositivos de banda larga, e o Foro TM, com seus modelos de arquitetura e APIs para integração de sistemas de telecomunicações, assim,

é importante destacar que essas referências são complementares. O Broadband Forum não padroniza todas as interfaces da rede, assim como o TM Forum não substitui os protocolos utilizados para gerenciar diretamente os equipamentos.

 Broadband Forum — Padronizando o gerenciamento de dispositivos

Um dos grandes desafios das operadoras é administrar uma base instalada heterogênea de equipamentos.

Roteadores e ONTs de diferentes fabricantes podem oferecer funções semelhantes, como configurar redes Wi-Fi, estabelecer conexões WAN ou executar diagnósticos. Entretanto, sem uma interface comum de gerenciamento, cada fornecedor pode exigir ferramentas e procedimentos específicos. Assim, o Broadband Forum desenvolveu padrões justamente para reduzir essa fragmentação.

TR-069: a consolidação do gerenciamento remoto

El TR-069, também conhecido como CPE WAN Management Protocol (CWMP), estabeleceu uma arquitetura padronizada para o gerenciamento remoto de equipamentos instalados nas dependências dos assinantes.

Nessa arquitetura, uma plataforma denominada Servidor de configuración automática (ACS) se comunica com os dispositivos para realizar operações de configuração, consulta de parâmetros, diagnóstico e manutenção.

O protocolo utiliza chamadas remotas baseadas em SOAP/XML sobre HTTP, com suporte à proteção das comunicações por TLS. As sessões CWMP são iniciadas pela CPE, embora o ACS também possa solicitar ao dispositivo o estabelecimento de uma nova sessão.

Por meio do TR-069, uma operadora pode automatizar atividades como provisionamento inicial, configuração de acesso à internet e Wi-Fi, atualização de firmware, coleta de estatísticas, execução de diagnósticos e reinicialização remota.

A principal contribuição do TR-069 foi permitir que uma mesma plataforma de gerenciamento atendesse dispositivos de múltiplos fornecedores, reduzindo a necessidade de desenvolver integrações inteiramente proprietárias.

O Broadband Forum também estabeleceu o programa de certificação BBF.069, destinado à verificação de conformidade de implementações do protocolo.

Entretanto, a compatibilidade com TR-069 não garante, isoladamente, que todos os dispositivos ofereçam as mesmas funcionalidades de gerenciamento.

O protocolo padroniza a comunicação, mas as capacidades efetivamente disponíveis dependem dos modelos de dados, dos perfis implementados e das características de cada equipamento.

TR-181: a importância de um modelo de dados comum

Além de padronizar a comunicação, é necessário estabelecer uma representação comum das informações gerenciadas.

Esse é o papel do TR-181, que define um modelo hierárquico de dados denominado Device:2, aplicável a equipamentos gerenciados por CWMP ou USP.

O modelo descreve objetos e parâmetros relacionados a interfaces de rede, configuração IP, Wi-Fi, roteamento, estatísticas e mecanismos de diagnóstico, entre outras funcionalidades.

Por exemplo, no modelo TR-181, o nome de uma rede Wi-Fi pode ser representado por um parâmetro como Device.WiFi.SSID.{i}.SSID, enquanto configurações de segurança são associadas aos objetos correspondentes em Device.WiFi.AccessPoint.

Isso permite que sistemas de gerenciamento trabalhem com uma estrutura conhecida, em vez de depender exclusivamente de comandos proprietários.

Ainda assim, fabricantes podem implementar subconjuntos distintos do modelo, versões diferentes ou extensões específicas. Equipamentos mais antigos também podem utilizar modelos anteriores, como o TR-098.

Portanto, a existência de um modelo padronizado reduz a complexidade de integração, mas não elimina a necessidade de verificar o comportamento real de cada dispositivo.

TR-369: a evolução para o User Services Platform

Com o crescimento dos serviços digitais, das aplicações embarcadas e da necessidade de automação, o Broadband Forum desenvolveu o TR-369, conhecido como User Services Platform (USP).

O USP representa uma evolução da arquitetura de gerenciamento remoto, ampliando suas possibilidades de integração e controle.

Enquanto o TR-069 utiliza uma arquitetura centrada na relação entre CPE e ACS, o TR-369 introduz os conceitos de USP Agent y USP Controller.

O Agent expõe as capacidades gerenciáveis de um dispositivo ou serviço. O Controller utiliza essas capacidades para consultar informações, modificar parâmetros, executar comandos e receber notificações.

Essa arquitetura oferece recursos importantes para a evolução das operações, incluindo comunicação baseada em mensagens e eventos, gerenciamento por múltiplos Controllers, controle granular de permissões e suporte a diferentes mecanismos de transporte de mensagens, como MQTT, WebSocket e STOMP.

O USP também amplia as possibilidades de gerenciamento de serviços e aplicações executados nos dispositivos, incluindo funcionalidades relacionadas ao ciclo de vida de módulos de software.

Na área de coleta de dados, oferece mecanismos de notificações e Bulk Data Collection, que podem ser utilizados para monitoramento e análise operacional. Vale observar que a coleta em lote também existe no ecossistema TR-069, por meio das extensões e dos modelos de dados associados.

A evolução para o TR-369 não significa o abandono imediato do TR-069. As operadoras possuem grandes bases instaladas de equipamentos legados, e ambos os protocolos podem coexistir.

O desafio passa a ser construir uma arquitetura de gerenciamento capaz de operar diferentes gerações de dispositivos sem exigir mudanças equivalentes em todos os sistemas que consomem suas informações.

Da diversidade de dispositivos à abstração operacional

Embora os padrões representem um avanço significativo, a adoção de protocolos abertos não elimina todos os problemas de interoperabilidade.

Dois equipamentos podem implementar TR-069 e TR-181 e ainda assim apresentar diferenças na disponibilidade de parâmetros, nas permissões de escrita, nas operações suportadas e no comportamento após uma alteração de configuração.

Essas diferenças podem ocorrer entre fabricantes e até mesmo entre versões de firmware de um mesmo modelo.

Uma estratégia para lidar com essa heterogeneidade é utilizar uma camada de abstração e normalização de dispositivos.

Essa camada oferece aos sistemas operacionais uma representação uniforme das funcionalidades disponíveis, traduzindo as solicitações para os parâmetros e procedimentos exigidos por cada dispositivo.

Considere novamente a alteração de uma configuração Wi-Fi.

Para um sistema de atendimento, a operação pode ser representada simplesmente como uma solicitação para modificar o nome da rede ou sua senha. Entretanto, a execução dessa operação pode envolver diferentes objetos de configuração, referências entre interfaces e verificações específicas do firmware.

A plataforma de gerenciamento deve identificar as capacidades do equipamento, aplicar as alterações necessárias e verificar o resultado.

Esse processo exige não apenas conhecimento dos parâmetros padronizados, mas também uma matriz de compatibilidade que considere fabricante, modelo, firmware e funcionalidades efetivamente homologadas.

Outro ponto fundamental é o tratamento das operações assíncronas. Uma solicitação de atualização de firmware, por exemplo, pode levar vários minutos e provocar a perda temporária de comunicação com o equipamento.

Por isso, o sistema não deve confundir a aceitação de uma solicitação com sua conclusão. É necessário acompanhar o estado da operação, tratar falhas e confirmar seu resultado.

Uma plataforma verdadeiramente interoperável não é aquela que apenas consegue se comunicar com muitos equipamentos, mas aquela que oferece comportamentos operacionais previsíveis e consistentes, mesmo diante de implementações distintas.

TM Forum — Integrando OSS e BSS

A padronização do gerenciamento de dispositivos resolve apenas uma parte do desafio.

As informações obtidas nos equipamentos precisam alimentar processos de maior nível, permitindo que sistemas de atendimento, gestão de serviços e automação utilizem os recursos disponíveis na rede.

É nessa integração que o Foro TM assume um papel de destaque.

A organização desenvolve modelos de referência e especificações destinados a facilitar a interoperabilidade entre os diferentes sistemas utilizados pelas operadoras.

Entre suas iniciativas está a Open Digital Architecture (ODA), que propõe uma arquitetura modular para os sistemas de telecomunicações, baseada em componentes interoperáveis, modelos de informação compartilhados e interfaces abertas.

Uma parte essencial dessa abordagem é o conjunto de TM Forum Open APIs, destinado a padronizar a comunicação entre aplicações e domínios operacionais e comerciais.

Essas APIs abrangem processos como inventário, gestão de serviços, pedidos, ativação e tratamento de incidentes.

Alguns exemplos relevantes são:

Essas especificações permitem estabelecer uma distinção importante entre produto, serviço e recurso.

Um assinante contrata um produto comercial, como um plano de banda larga. Esse produto está associado a um ou mais serviços técnicos, que dependem de recursos físicos e lógicos para funcionar.

Uma ONT instalada na residência é um recurso. A conectividade entregue ao assinante compõe o serviço. O plano comercial contratado pertence ao domínio de produto.

Quando esses conceitos estão adequadamente relacionados, a operadora consegue conectar os processos de negócio às operações técnicas necessárias para entregar e manter os serviços.

Isso não significa que o TM Forum determine diretamente como um equipamento deve ser configurado. As Open APIs definem interfaces entre sistemas, enquanto o OSS e suas plataformas de gerenciamento traduzem as solicitações em operações adequadas aos recursos de rede.

O resultado é uma arquitetura na qual os sistemas de negócio deixam de depender dos detalhes de implementação de cada fabricante.

Um exemplo de interoperabilidade de ponta a ponta

Para compreender a importância dessa integração, podemos considerar um processo de suporte técnico.

Um assinante entra em contato com a operadora para solicitar a alteração da senha de sua rede Wi-Fi.

O atendente acessa o CRM, que identifica o cliente, o contrato e o serviço de banda larga associado.

Por meio da integração entre BSS e OSS, o sistema obtém as informações sobre os recursos técnicos vinculados ao serviço, incluindo o equipamento instalado na residência.

A plataforma de gerenciamento identifica o dispositivo, verifica suas capacidades e encaminha a operação utilizando o protocolo suportado, como TR-069 ou TR-369.

Após executar a alteração, a plataforma confirma o resultado e disponibiliza essa informação ao sistema que originou a solicitação.

Todo o processo pode ocorrer sem que o atendente precise conhecer o fabricante do roteador, o protocolo de gerenciamento ou os parâmetros utilizados internamente.

Essa separação de responsabilidades produz um benefício importante: a substituição de um equipamento por outro, desde que suas capacidades sejam adequadamente suportadas, não precisa exigir a reconstrução do processo de atendimento.

O mesmo princípio pode ser aplicado a diagnósticos, provisionamento, monitoramento e manutenção remota.

Para garantir que essa integração funcione em escala, a arquitetura deve incorporar autenticação, autorização, proteção dos dados, auditoria e mecanismos de correlação entre solicitações e resultados.

Também é necessário tratar situações como equipamentos offline, operações não suportadas, falhas temporárias e solicitações repetidas.

A interoperabilidade, portanto, não depende apenas de padronizar interfaces. Ela exige processos operacionais capazes de lidar com os diferentes estados e comportamentos dos sistemas envolvidos.

 O papel da Anlix na interoperabilidade das redes

A integração de dispositivos heterogêneos com os sistemas operacionais representa justamente um dos desafios que as soluções da Anlix buscam resolver.

Ao oferecer ferramentas de gerenciamento remoto e diagnóstico de CPEs, a empresa atua na conexão entre os equipamentos instalados na rede do assinante e os sistemas utilizados pelas equipes operacionais.

Um exemplo concreto dessa atuação é a integração da solução Flashbox com a ONU GPON Datacom DM985-424.

A homologação, divulgada pela Datacom e pela Anlix, permite o gerenciamento remoto do equipamento por TR-069, incluindo operações relacionadas à configuração Wi-Fi, PPPoE, DHCP, endereço IP da rede local, encaminhamento de portas e reinicialização.

Esse exemplo demonstra a importância de combinar protocolos padronizados com um trabalho de homologação que valide as funcionalidades efetivamente disponíveis em cada equipamento.

A interoperabilidade também precisa ser considerada na comunicação com os sistemas utilizados pelas operadoras.

A integração entre a Anlix e a plataforma Hubsoft ilustra essa segunda dimensão. A partir do sistema de gestão, o provedor pode associar CPEs aos planos dos assinantes e executar determinadas operações, como alterar configurações Wi-Fi e reiniciar equipamentos, conforme as funcionalidades suportadas.

Nesse modelo, o sistema de atendimento não precisa implementar diretamente cada protocolo de comunicação utilizado pelos dispositivos. Ele consome funcionalidades expostas pela plataforma de gerenciamento.

Para operadoras e provedores que buscam modernizar sua arquitetura OSS/BSS, esse modelo pode ser ampliado por meio de camadas de integração alinhadas aos princípios do TM Forum, separando as capacidades técnicas dos equipamentos dos processos de negócio.

A adoção de uma arquitetura baseada em TR-069, a evolução gradual para TR-369 e o uso de interfaces padronizadas para sistemas de nível superior representam caminhos complementares.

A contribuição da Anlix está em ajudar a reduzir a complexidade da gerência de uma base heterogênea de dispositivos, disponibilizando informações e operações que podem ser incorporadas aos processos de atendimento, automação e diagnóstico.

Esse papel tende a ganhar importância à medida que as operadoras avançam para ambientes mais desagregados, com maior diversidade de fornecedores e crescente demanda por automação.

Interoperabilidade como fundamento da evolução das redes

A interoperabilidade deixou de ser apenas uma característica desejável dos equipamentos e passou a representar um requisito fundamental para a evolução das operadoras de telecomunicações.

A adoção de arquiteturas abertas e desagregadas amplia a liberdade de escolha de fornecedores, mas também aumenta a necessidade de integração entre dispositivos, plataformas de gerenciamento e sistemas de negócio.

Nesse cenário, padrões desenvolvidos pelo Broadband Forum, como TR-069, TR-369 e TR-181, oferecem fundamentos importantes para o gerenciamento de equipamentos heterogêneos.

De forma complementar, o TM Forum contribui para a padronização das interfaces e dos modelos de informação que conectam os sistemas OSS e BSS.

Entretanto, padrões abertos não eliminam a necessidade de homologação, abstração de capacidades, segurança e observabilidade.

É na combinação desses elementos que a interoperabilidade se transforma em uma capacidade operacional efetiva.

Ao atuar na camada de gerenciamento e integração de dispositivos, a Anlix pode contribuir para que operadoras e provedores aproveitem os benefícios da padronização sem abrir mão da diversidade tecnológica existente em suas redes.

O objetivo final não é simplesmente conectar equipamentos de diferentes fabricantes, mas permitir que toda a operação funcione de forma integrada, independentemente das tecnologias e dos fornecedores envolvidos.

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2026-11-03T21:04:10+00:00noviembre 3rd, 2026|

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